Quando o assunto é Reforma Tributária, a primeira coisa que vem à cabeça são as siglas novas: CBS, IBS, Imposto Seletivo. Mas existe uma mudança que vai mexer de forma bem concreta na rotina financeira das empresas. É o Split Payment.
O nome soa técnico, mas a ideia é simples. Hoje, a empresa recebe o valor cheio da venda e paga o imposto depois, em outra data. Com o Split Payment, o imposto é separado no próprio momento do pagamento e vai direto para o Fisco.
E o calendário já começou a andar. Os testes com as instituições de pagamento começaram em outubro de 2026, e a previsão é que o mecanismo esteja disponível para todas as empresas a partir de agosto de 2027. Neste guia, você vai entender como o Split Payment funciona, o que muda na nota fiscal eletrônica, qual o impacto no caixa e como se preparar.
O que é Split Payment
Split Payment quer dizer “pagamento dividido”. Na prática, quando o cliente paga uma compra, o valor se divide em duas partes:
- a parte da empresa, que é o valor líquido da venda;
- a parte do imposto (CBS e IBS), que segue direto para os cofres públicos.
Ou seja, o dinheiro do tributo deixa de passar pelo caixa da empresa. Ele é separado no instante em que o pagamento é liquidado.
Por que a Reforma Tributária adotou esse modelo
O objetivo é reduzir a sonegação e a inadimplência. Quando o imposto é separado automaticamente, sobra pouco espaço para erro de recolhimento ou para nota fria.
Além disso, o modelo dá mais segurança ao crédito tributário. No novo sistema, quem compra só aproveita o crédito do imposto que foi efetivamente pago. Com o Split, esse pagamento fica garantido na origem.
Como o Split se conecta à CBS e ao IBS
A CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) é federal e substitui o PIS e a Cofins. O IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) é estadual e municipal e vai substituir, aos poucos, o ICMS e o ISS. Os dois são os novos tributos sobre consumo.
O Split Payment define como e quando essa cobrança acontece.
Cronograma do Split Payment: o que já aconteceu e o que vem por aí
O calendário da reforma mudou algumas vezes. Esta é a situação em novembro de 2026:
| Quando | O que acontece | Situação |
| Janeiro de 2026 | Começa o ano de teste: as notas destacam CBS de 0,9% e IBS de 0,1%, sem recolhimento para quem cumpre as obrigações acessórias | Em vigor |
| 3 de agosto de 2026 | Destaque de CBS e IBS na NF-e passa a ser obrigatório para empresas do Lucro Real e do Lucro Presumido | Em vigor |
| 15 de outubro de 2026 | Começam os testes técnicos da plataforma pública do Split Payment com instituições de pagamento | Em andamento |
| Janeiro de 2027 | A CBS passa a ser cobrada de fato, e o PIS e a Cofins deixam de existir | Previsto em lei |
| Março a julho de 2027 | Testes restritos, em ambiente monitorado, com TEF, TED, Pix e boleto | Previsão |
| 2 de agosto de 2027 | Split Payment disponível para todas as empresas em TEF, TED, Pix com chave e QR Code estático, com uso facultativo | Previsão |
| 4 de outubro de 2027 | Entram o boleto e o Pix com QR Code dinâmico ou automático | Previsão |
| Até dois anos após o lançamento | Uso obrigatório nas operações entre empresas (B2B) | Previsão |
Atenção: as datas de 2027 foram divulgadas pela imprensa, mas ainda não constam de um ato oficial da Receita Federal e do Comitê Gestor do IBS. Cartões de crédito e débito ficam de fora da primeira fase, e as vendas ao consumidor final (B2C) ainda não têm data.
O que muda na nota fiscal eletrônica
A nota fiscal eletrônica deixa de ser só um documento fiscal. Ela passa a ser o ponto de partida do Split Payment.
Isso porque o sistema precisa ligar três coisas: a venda, a nota e o pagamento. É a nota que informa quanto de CBS e de IBS incide em cada operação. Com base nela, a plataforma calcula quanto do pagamento vai para o Fisco.
A nota já mudou em 2026
Desde 2026, a NF-e, a NFC-e, o CT-e e a NFS-e têm campos próprios para CBS e IBS. Para as empresas do Lucro Real e do Lucro Presumido, o preenchimento é obrigatório desde 3 de agosto de 2026, conforme o Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 4/2026.
Por enquanto, a Sefaz não rejeita automaticamente a nota que vem sem esses campos. Porém, quando eles são preenchidos com erro, a nota pode ser recusada. E a empresa que não cumpre as obrigações do ano de teste perde a dispensa de recolher a CBS e o IBS de 2026.
Pontos de atenção na emissão
- cada nota precisa identificar a CBS e o IBS operação por operação;
- a classificação fiscal correta de produtos e serviços vira condição para o cálculo certo;
- o crédito de quem compra passa a ser rastreado pela própria nota;
- um erro na nota pode afetar não só a apuração, mas o valor que entra no caixa.
Como o Split Payment vai funcionar na prática
Na primeira fase, o Split vale apenas para operações entre empresas que emitem nota com CBS e IBS. O funcionamento muda conforme o meio de pagamento:
- Boleto e Pix com QR Code dinâmico ou automático: o sistema consulta a Receita e o Comitê Gestor em tempo real. Se o fornecedor tem créditos suficientes ou o imposto já foi pago, não há retenção.
- TEF, TED e Pix com chave: não há consulta prévia. O imposto é separado no pagamento, e o valor retido a mais deve ser devolvido em até três dias úteis. A Receita quer reduzir esse prazo para 24 horas.
Do lado de quem compra, o crédito fica vinculado ao imposto efetivamente pago. Com o Split, o comprador consegue esse crédito sem depender apenas de o fornecedor recolher o tributo.
O impacto no fluxo de caixa
Esse é o ponto que mais vai mexer na rotina financeira. Hoje, existe um intervalo entre receber o valor cheio da venda e pagar o imposto. Nesse meio-tempo, o dinheiro do tributo fica disponível, e muitas empresas usam esse valor como capital de giro, mesmo sem perceber.
Com o Split Payment, esse intervalo some. O imposto sai na hora.
O que isso significa na prática
- o valor que entra no caixa por venda diminui na hora;
- a folga entre receber e recolher o imposto desaparece;
- quem dependia desse intervalo precisa rever o capital de giro;
- as projeções de caixa passam a trabalhar com valores líquidos desde a venda.
O impacto tende a ser maior para fornecedores que recebem à vista ou em até 60 dias e têm poucos créditos de compras. Empresas com bastante crédito acumulado sentem menos, porque esses créditos podem reduzir ou até zerar a retenção.
Vale lembrar: não se trata de pagar mais imposto. O valor seria pago de qualquer forma. O que muda é o momento, e para quem planeja o caixa mês a mês, o momento faz toda a diferença.
O lado positivo: créditos mais rápidos
Como os créditos passam a ser rastreados operação por operação, o aproveitamento tende a ficar mais rápido e transparente. Assim, empresas com dados fiscais bem organizados ganham agilidade para compensar e pedir restituição.
E o Simples Nacional?
Empresas que ficam no Simples tradicional não entram na primeira fase do Split. Já as que optaram por recolher CBS e IBS pelo regime regular podem ser alcançadas. O prazo dessa opção para o primeiro semestre de 2027 terminou em 30 de outubro de 2026. Uma nova janela, para o segundo semestre, está prevista para março de 2027.
Como preparar a empresa para o Split Payment em 6 passos
A preparação não exige mudanças bruscas. Exige ajustes bem coordenados entre as áreas fiscal, financeira e contábil.
1. Revise a emissão de notas fiscais
Confirme se o ERP, o sistema de gestão da empresa, já preenche corretamente a CBS e o IBS em cada operação. Se ainda não, alinhe o cronograma com o fornecedor do sistema.
2. Confira a classificação fiscal de produtos e serviços
Classificação errada gera cálculo errado. Com o Split, esse erro vai direto para o valor recebido.
3. Converse com bancos e meios de pagamento
Pergunte aos seus bancos como eles vão operar a separação do imposto e quando vão aderir à plataforma. A integração precisa estar testada antes de o Split começar para valer.
4. Refaça o planejamento de caixa
Simule o recebimento líquido desde a venda e veja se o capital de giro aguenta. Se não aguentar, este é o momento de rever prazos com clientes e fornecedores.
5. Organize o controle de créditos
Estruture os dados fiscais para capturar todos os créditos a que a empresa tem direito. No novo modelo, crédito bem controlado reduz a retenção e alivia o caixa.
6. Treine as equipes
Fiscal, financeiro e contábil precisam entender a nova lógica. O Split conecta áreas que antes trabalhavam separadas.
Preparação hoje, tranquilidade em 2027
O Split Payment não é uma ameaça ao caixa. É uma mudança na forma como o imposto sai da empresa. Com preparo, ela pode até simplificar a gestão fiscal.
O segredo é começar cedo. Revisar as notas, testar a integração com os bancos e ajustar as projeções de caixa são tarefas que levam tempo. E, com a CBS valendo a partir de janeiro, não dá para deixar para a véspera.
Se a sua empresa ainda não mapeou o impacto do Split Payment, fale com um especialista do Grupo MHM.

Perguntas Frequentes (FAQ)
O que é Split Payment na Reforma Tributária?
É o mecanismo que separa, no momento do pagamento, a parte que corresponde à CBS e ao IBS da parte que pertence à empresa. O imposto vai direto para o Fisco, sem passar pelo caixa do negócio.
O Split Payment vai aumentar os impostos da minha empresa?
Não. O Split não muda a carga tributária. Ele muda o momento em que o imposto sai da empresa: na hora do pagamento, e não em uma data posterior.
Quais meios de pagamento entram primeiro?
Na primeira fase, entram TEF, TED, Pix (com chave ou QR Code) e boleto. Cartões de crédito e débito ficam para depois, e as vendas ao consumidor final ainda não têm data definida.
A nota fiscal já precisa ter os campos de CBS e IBS?
Sim. Para empresas do Lucro Real e do Lucro Presumido, o destaque de CBS e IBS na NF-e é obrigatório desde 3 de agosto de 2026. Em 2026, as alíquotas são de teste (0,9% de CBS e 0,1% de IBS), e quem cumpre as obrigações acessórias fica dispensado de recolher esses valores.
Qual o principal impacto do Split Payment no fluxo de caixa?
O valor líquido recebido por venda diminui na hora, porque o imposto sai no pagamento. A folga entre receber e recolher desaparece, o que pode exigir mais capital de giro, principalmente de quem tem poucos créditos de compras.
Empresas do Simples Nacional entram no Split Payment?
Não na primeira fase, se continuarem no Simples tradicional. Quem optou por recolher CBS e IBS pelo regime regular pode ser alcançado pelo Split nas operações com outras empresas.